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Conheça a história de negros que conseguiram importantes cargos na Polícia Civil do DF

domingo, 29 de novembro de 2020

Em mais uma reportagem da série Histórias de Consciência, o Correio conta a trajetória de quatro pessoas que precisaram concentrar o dobro de esforços para alcançar uma posição de destaque em uma das instituições mais importantes do DF.



luta contra a discriminação racial é árdua, dolorosa, e o resultado demora a acontecer. Cada negro carrega, dentro de si, marcas do racismo estrutural e explícito na sociedade. Ricardo nasceu na Asa Sul. Márcia Margarete, em Belém (PA). Emerson viveu em uma das quadras mais perigosas de Ceilândia. João Maciel veio ao mundo no pequeno município paulista de Estrela d’Oeste. Mesmo com origem em locais tão distantes, compartilham histórias em comum: a superação às adversidades impostas pela cor e pela classe social, e o sonho de integrar a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).

 No especial para o mês da Consciência Negra, o Correio publicou perfis de servidores da Segurança Pública do DF que alcançaram posições de destaque dentro das corporações. Agora, três delegados e um perito criminal da PCDF contam como venceram a violência, dedicaram-se para conseguir a aprovação em um concurso público e como transformaram o preconceito racial em combustível para se tornarem referência e inspiração na luta contra o racismo.

As histórias são de conquistas, mas também de sacrifícios. Embora esses servidores tenham alcançado espaços de destaque dentro da instituição, ainda são minoria: dos pouco mais de 5,1 mil integrantes ativos e inativos da PCDF, 77 consideram-se negros — o equivalente a 1,4% do total.

Emerson Pinto de Souza, 46 anos

 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Natural de Ceilândia
Perito e diretor do Instituto de Criminalística (IC)

“Na universidade, precisei escutar que engenharia não foi feita para ‘pé rapado de Ceilândia mudar de classe social, mas para a elite, e para formar elites’”

Emerson Pinto de Souza, 46 anos, é o filho mais velho de três irmãos. O pai deles, o carpinteiro aposentado Paulino Alves de Souza, 77, veio de uma cidade pobre do oeste de Minas Gerais, no distrito da Caatinga, em Brasilândia. A mãe, já falecida, era a merendeira Luiza Pinto de Souza, nascida em João Pinheiro (MG). Na década de 1960, Paulino veio ao Distrito Federal para ajudar a mãe dele, diagnosticada com um câncer de mama. Luiza veio como babá de uma família de servidores públicos de Patos de Minas transferida para a nova capital do país.

“Em 1970, minha avó morreu. Meu pai se viu diante de uma escolha: retornar para Caatinga e passar fome ou seguir aqui em Brasília. Ele escolheu a segunda opção, e passou a trabalhar como servente de obras, ajudando em construções da capital federal. Minha mãe morava na casa da família de servidores, na 707 Sul. Nesse período, reencontraram-se e decidiram se casar. Meu pai residia na invasão do IAPI, e acabou ganhando um lote em Ceilândia, onde iniciou a trajetória da minha família”, conta.

Paulino construiu, sozinho, um barraco na QNM 20, em Ceilândia Norte. Em 27 de abril de 1974, Luiza deu à luz o primogênito, o perito criminal Emerson. Nos quatro anos seguintes, nasceram os dois irmãos: o agente do Detran-DF Elton Pinto de Souza, 42, e a agente de execução penal Elisângela Pinto de Souza, 44. Durante cerca de 10 anos, a família dormia no único quarto da casa.

“Minha mãe era muito católica. Lembro que, ao chover, ela rezava para o nosso barraco não cair. Mas meus pais sempre foram muito dedicados e, ao longo de seis anos, juntaram dinheiro para comprar materiais e construir uma casa nova. O sonho se tornou realidade em 1984, quando nos mudamos para a residência em frente ao nosso barraquinho”, relata o diretor do IC.

Na infância, Emerson conviveu com amigos da mesma rua, brincando. Mas a violência tornou os dias obscuros. “Na primeira e na segunda morte (presenciadas), nos impactamos. Depois, tornou-se algo comum. Só quando deixei aquela realidade percebi quão violenta era minha quadra. Como perito criminal, fiz três perícias de morte violenta na QNM 20, uma delas após o homicídio de uma criança de apenas 3 anos.”

Emerson viu vários amigos se envolverem com a criminalidade e perderem a vida. Os pais, sobretudo a mãe, foram o alicerce para que o perito não escolhesse o mesmo caminho. Dedicou-se aos estudos, na esperança de uma vida melhor. “Minha mãe sempre dizia que, se a gente trabalhasse, algo bom aconteceria. Então, o otimismo nunca nos deixou cair na criminalidade, mesmo vendo como o dinheiro aparecia de forma fácil”, diz.

Seis meses após terminar o ensino médio no Centro de Ensino Médio nº 2 de Ceilândia Norte, Emerson ingressou no curso de engenharia elétrica pelo vestibular da Universidade de Brasília (UnB). “Eu brinco dizendo que, não sabendo que era impossível, fui lá e passei. Minha aprovação serviu de inspiração a outros alunos do colégio. Mas a trajetória foi árdua. Enquanto colegas chegavam ao câmpus em 15 minutos, eu levava mais de 1h30 e começava o dia exausto. Ali dentro, sofri preconceito e cheguei a ouvir que engenharia não foi feita para ‘pé rapado de Ceilândia mudar de classe social, mas para a elite, e para formar elites’.”

Emerson foi aprovado em seis concursos públicos, alguns depois de ingressar na PCDF como perito criminal, em 2002. “Apaixonei-me pela profissão. Fiquei, ao todo, oito anos na seção de morte violenta e mais seis na de crimes contra o patrimônio. Mesmo na corporação, continuei morando em Ceilândia, mas com o sonho de morar aqui, em frente ao Complexo da Polícia Civil, no Sudoeste”, afirma.

Em 2008, o perito criminal comprou um apartamento no bairro, pouco antes de perder a mãe para a diabetes. “Essa época foi muito difícil para mim, mas, também, o início de mais uma parte da minha trajetória. Quando meu pai trabalhava como carpinteiro, ajudou a construir as formas das lajes de prédios da minha quadra (na Avenida das Jaqueiras). Mesmo anos após eu viver aqui, meu pai se emociona ao ir à minha casa.”

“Em tanto tempo na Polícia Civil, também nutria o sonho de me tornar diretor do Instituto de Criminalística. Nos anos de eleição, quando é escolhido o diretor da corporação, os peritos criminais fazem uma votação para formar lista tríplice para o cargo de diretor do IC. Em 2018, coloquei meu nome e fui o segundo mais votado. Em 2019, tive a honra de ser nomeado”, frisa. Ainda que tenha chegado ao topo no departamento onde atua, Emerson considera que a trajetória profissional está em construção.

Márcia Margarete Pessanha, 52 anos

 (crédito:  Ana Rayssa/CB)

Natural de Belém do Pará

Delegada e vogal da Comissão Permanente de Disciplina (CPD)

“Tinha passado por diversas discriminações raciais. Perdi muitas oportunidades por simplesmente ser quem sou”

A delegada Márcia Margarete Pessanha, 52 anos, nasceu em Belém do Pará, em 4 de agosto de 1968, filha de mãe solo, a costureira Edda Rodrigues. É a mais velha entre os irmãos e viveu no estado da região Norte até os 6 anos, quando a mãe recebeu uma proposta de trabalho no Rio de Janeiro, em uma fábrica de tecidos. A família, acompanhada da avó materna e também costureira, Maria Rosa Rodrigues, passou a morar na Cidade de Deus.

Edda passava a semana inteira fora de casa. As crianças ficavam sob a supervisão da avó. Cresceram em meio à violência, entre os anos 1970 e 1980 — mesmo período retratado no filme dirigido por Fernando Meirelles e codirigido por Kátia Lund, inspirado no romance homônimo de Paulo Lins.

“Minha família era católica, mas não podíamos ir às missas, por medo da violência. Quando criança, minha grade de ensino não era totalmente cumprida, por falta de professores. Eles tinham medo de entrar na comunidade. O índice de mortes, tanto de envolvidos no crime quanto de moradores, por bala perdida era alto. Em meio a tudo isso, nossa avó se dedicava a nos orientar a buscar o caminho do esporte, dos estudos e a não sucumbir à criminalidade da Cidade de Deus”, conta Márcia Margarete.

Como a mais velha dos filhos, a delegada encarou responsabilidades desde muito nova, dentro de casa, auxiliando na criação dos irmãos. Conciliava os cuidados da família com os estudos. “Minha avó acreditava demais no meu potencial e sempre me incentivava, dizendo que eu poderia ir longe na vida. Até hoje, eu me recordo das palavras dela, quando eu ainda era criança: ‘Você precisa ler muito, pois um dia se tornará doutora’”, narra, emocionada.

Com o objetivo de crescer na vida e não se tornar estatística da violência, Márcia Margarete passou a se dedicar aos esportes. Aos 15 anos, integrou o Programa de Esporte da Fundação Roberto Marinho, no atletismo. “Foi assim que dei o primeiro passo para mudar minha história, pois consegui uma bolsa de estudos no Centro Universitário Augusto Motta e fiz o curso de fisioterapia. Eu me tornei a primeira da família a ingressar em uma faculdade. Infelizmente, minha avó não pôde presenciar essa vitória, porque morreu de câncer aos 66 anos”, lamenta a delegada.

A investigadora trabalhou como fisioterapeuta por 18 anos, mas não deixou para trás um sonho incentivado pela avó Maria Rosa: estudar direito. Ingressou na segunda faculdade, em 1999, na Universidade Estácio de Sá. “Em meio aos estudos, nasceu em mim a vontade de ser delegada. (Estava) quase com 30 anos. Nessa época, tinha passado por diversas discriminações raciais. Perdi muitas oportunidades por simplesmente ser quem sou. Como mulher e negra, eu podia ser sempre a mais gostosa, mas jamais a mais inteligente e competente.”

“Com toda a minha bagagem, tinha plena consciência de que o primeiro braço que oprime mulheres como eu era a polícia. Eu poderia fazer a diferença nesse meio e servir de exemplo. Também vi no concurso público a chance de alcançar a mudança de vida sem que eu precisasse encarar preconceito racial. Eu poderia ingressar na Polícia Civil do Distrito Federal pelo meu estudo, e nada poderia me impedir de conquistar isso.”

Márcia Margarete conciliou o trabalho como terapeuta, os estudos para a faculdade e a preparação para a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) com as lições para o concurso da PCDF. “Durante anos, questionavam o porquê de eu, favelada e negra, querer ser delegada. Ouvia que não seria capaz. Mas tais falas e perguntas não afetaram minha autoestima, tampouco os meus objetivos”, destaca. No fim de 2004, ela passou em 20º lugar para o cargo de delegada de polícia no Distrito Federal. “Ao ser aprovada, tive noção de que a vida das próximas gerações da minha família seria diferente. Digo isso porque nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar como vivo hoje”, acrescenta.

Por quase dois anos, a delegada chefiou a 23ª Delegacia de Polícia (P Sul, em Ceilândia). Na comunidade da região, Márcia Margarete desenvolve projetos sociais de inclusão de crianças e adolescentes pelo esporte. Ela também participa de palestras em escolas públicas, com o objetivo de inspirar novas gerações. “O racismo estrutural existe, e nós o vemos desde a escola, onde se reproduzem preconceitos. É lamentável, e muitos desistem por não aguentarem as marcas dele. Hoje, tento ser a representatividade que não tive na infância e, mais do que qualquer coisa, mostrar que é possível vencer as adversidades e construir uma vida diferente e melhor”, pontua Márcia Margarete, que participará do programa esportivo World Police & Fire Games, em Rotterdam, na Holanda, em 2022.

Ricardo Nogueira Viana, 50 anos

 (crédito: Ana Rayssa/CB)

Natural de Brasília
Delegado-chefe da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá)

“Quando o negro consegue, luta e conquista a ascensão social, mas passa a ser ‘tolerado’. Principalmente no campo das ideias, toda vez que se depara com um branco, essa ferida, ou seja, a cor da pele, é tocada”

Ricardo Nogueira Viana, 50 anos, nasceu e cresceu na Asa Sul, na companhia dos pais — o segurança Antônio José Viana, 83, e a dona de casa Raimunda Nogueira Viana, 87 —, além de oito irmãos. A família chegou a Brasília com a mudança da capital do país, em 1960, quando o pai conseguiu um emprego no Senado com a ajuda do político Vitorino Freire.

“Meu pai era de São Luís, e minha mãe, de Rosário, ambas cidades do Maranhão. Eles se conheceram na capital (maranhense) e se casaram, em 1953. Naquela época, meu pai tinha conseguido emprego de motorista para Vitorino, que, posteriormente, tornou-se senador. Com o novo cargo político, minha família foi, primeiro, para o Rio de Janeiro e, então, Brasília. Aqui, ele passou a ser segurança do Senado”, detalha Ricardo.

Posteriormente, a família comprou um imóvel na 709 Sul. “Meu pai conseguiu pagar a casa com parcelamentos que duraram anos, mas sem juros”, conta. Embora Ricardo morasse em região de alto poder aquisitivo, não tinha as mesmas condições financeiras que os amigos de infância. “Éramos uma família muito grande, e o que sobrava em carinho faltava economicamente. Nunca passamos fome, mas encaramos dificuldades. Apesar de o salário do Senado ser razoável, não era o suficiente para o sustento de 10 pessoas. Era aí que minha mãe se virava para complementar a renda. Ela chegava a vender marmitas, para que nada nos faltasse”, recorda-se.

O delegado estudou em escolas públicas e, já no primário, encarou o preconceito racial. Ele chegou a ser o único negro da Escola Classe 308 Sul: “Desde novo, tenho (vivido) situações de racismo latentes; a maioria velada, mas muitas ostensivas. Todas as discriminações me marcaram. Digo que essas minhas histórias são guardadas em uma caixinha preta e, cada vez que sofro racismo, revivo tudo de novo”.

Apesar disso, Ricardo não perdeu a esperança de crescer. Aos 11 anos, pediu aos pais para fazer o primeiro de muitos concursos: a prova para ingressar no Colégio Militar. “Como minha família não tinha condições financeiras para bancar escolas particulares a mim ou aos meus irmãos, vislumbrei que o ensino militar seria a melhor forma de conseguir um estudo de qualidade”, diz.

O delegado estava na sexta série — atual sétimo ano — quando passou na prova do colégio. No entanto, a norma era de que os estudantes entrassem na quinta série e, por isso, Ricardo decidiu repetir o ano anterior. “Na juventude, descobri a paixão pelos esportes e passei a me dedicar ao judô. Eu me tornei faixa preta. Mal sabia que essa vocação seria fundamental para meu crescimento profissional”, observa.

Em 1990, Ricardo formou-se no ensino médio e conseguiu entrar para o curso de educação física da Universidade de Brasília (UnB), mas não desistiu do sonho de estudar direito. Passou a dar aulas de judô para pagar a segunda graduação. “Em 1993, comecei a cursar direito no UniCeub. Era uma rotina extremamente puxada, porque dividia o tempo com as grades da UnB e com as aulas de judô. Ao fim do semestre, eu me desesperava, mas, com muita dedicação, conseguia honrar meus compromissos. Foi com sacrifícios que consegui chegar aonde estou.”

Na primeira graduação, Ricardo recebeu o diploma em 1996. O delegado já havia sido aprovado em três concursos públicos. Chegou a assumir uma cadeira como professor de educação física na Secretaria de Educação, porém, no mesmo ano, foi aprovado em primeiro lugar como agente da Polícia Civil do DF. “Optei pela carreira policial, que era o meu sonho”, conta.

Após entrar na PCDF, o servidor formou-se em direito, em 1999. Sete anos depois, alcançou o sonho de se tornar delegado de polícia e, mesmo com a ascensão, encarou situações de racismo. “Há 10 anos, em uma viagem ao Rio de Janeiro, fui atacado por um homem branco, de dois metros (de altura) e olhos verdes. Havia acabado de chegar ao hotel com minha família, em Ipanema, e ele partiu para cima de mim e dos que amo, dizendo: ‘Seu bando de macaco, o lugar de vocês é no galho, comendo banana. Vão embora para a África’.”

Em 2020, a história se repetiu, com pouca mudança no enredo. Dessa vez, o delegado estava em uma lanchonete do Lago Sul quando foi empurrado e chamado de “macaco”. O Correio denunciou o caso, que teve repercussão nacional. “Nesse episódio, em 8 de agosto, fiquei em evidência. Como afrodescendente, posso afirmar que esse não foi o primeiro e nem (será o) último episódio de racismo”, lamenta Ricardo.

“Quando o negro consegue, luta e conquista a ascensão social, mas passa a ser ‘tolerado’. Principalmente no campo das ideias, toda vez que se depara com um branco, essa ferida, ou seja, a cor da pele, é tocada. Falo por aqueles que, como eu, são discriminados. Vidas negras importam. Nossas semelhanças precisam ser maiores que as diferenças. Nós, negros, exigimos respeito.”

João Maciel Claro, 44 anos

 (crédito: MINERVINO JUNIOR                    )

Natural de Estrela d’Oeste (SP)
Delegado-chefe da 3ª Delegacia de Polícia (Cruzeiro)

“Como delegado, posso ser o primeiro a evitar que erros aconteçam. De fato, é melhor um culpado livre do que um inocente encarcerado”


O delegado João Maciel Claro, 44 anos, é o mais novo de nove irmãos. Nasceu no interior de São Paulo, em Estrela d’Oeste, onde acompanhou de perto a profissão dos pais. Francisco de Assis Claro e Neuza Senhora de Jesus Claro morreram aos 64 e aos 70 anos, respectivamente. Trabalhavam como lavradores em fazendas de café. O casal era analfabeto, mas incentivava os estudos dos filhos.

João Maciel trabalhou até os 20 anos como meeiro em plantações de café — profissão rural com foco na colheita dos grãos. No serviço, ficava com 40% do lucro, e os donos da produção, com 60%. Ao longo da vida, o investigador viu os irmãos deixarem as lavouras para estudar e, no início da juventude, seguiu o mesmo destino. Mudou-se para Presidente Prudente (SP), onde moravam os irmãos Lorival Marcolino Claro, 55, e Donizete Maciel Claro, 54. “Ali, tentei diversos empregos, mas não conseguia nada. Hoje, reflito muito sobre essa fase. Não era por falta de dedicação, mas será que era tão incompetente a ponto de não conseguir um trabalho por três anos?”, reflete.

Desempregado, João Maciel dedicou-se aos estudos e, aos 23 anos, conseguiu passar no concurso para segurança do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), no Fórum de Regente Feijó. “Então, consegui ingressar na Instituição Toledo de Ensino, para cursar direito. Trabalhava à noite, em escala, e estudava pela manhã. Mas, na Corte, contei com a ajuda de colegas, sobretudo da juíza Flávia Alves Medeiros, que me permitia estudar na biblioteca local”, detalha. “Durante o período da faculdade, fui muito marginalizado. Todo mundo dizia que eu não conseguiria me formar, imagina passar em concurso público. Mas não esmoreci. Via meus irmãos conquistando o espaço deles e não deixei que as dificuldades me afastassem dos meus sonhos”, acrescenta.

Aos 29 anos, João Maciel passou no concurso da Polícia Civil do DF — antes mesmo de pegar o diploma de bacharel em direito, ao defender uma monografia sobre a importância das cotas raciais. “À minha época, não havia cotas. Mas trata-se de uma política pública necessária. Na história do nosso país, o negro era escravizado. Mesmo após a abolição da escravatura, foram deixados às margens da sociedade. Deveriam ter pago os serviços dos negros, mas, em vez disso, preferiram contratar a força de trabalho italiana. O Brasil tem, sim, uma dívida histórica com todos os negros. É preciso que sejamos inseridos em espaços onde não conseguimos abertura. Os negros ajudaram a construir nosso país, e isso não é reconhecido até hoje”, enfatiza.

João Maciel mudou-se para Brasília para assumir o cargo de delegado. Durante o curso de formação, viveu mais de uma situação de racismo pelas ruas da capital federal. “Estava lotado em Ceilândia e acompanhado de um amigo, também delegado, que está aposentado. Estávamos comendo em uma lanchonete no centro da cidade, caracterizados (como profissionais). Pouco tempo depois, chegou uma viatura. Cumprimentamos os policiais e eles relataram que estavam ali por nossa causa. (Pessoas da lanchonete) acharam que éramos bandidos”, conta o servidor público.

Outro caso vivido pelo investigador ocorreu em uma lan house, também em Ceilândia e com o mesmo delegado aposentado. “Fomos conferir o resultado das provas de formação da PCDF. Meu amigo acabou perdendo a chave do carro dele, um Corsa, e acionou o seguro. Porém, precisamos esperar e ficamos ao lado do veículo. Acionaram 10 vezes a Polícia Militar, e fomos abordados em todas as ocasiões. Mesmo vendo que os policiais falavam conosco e iam embora, os moradores ligavam novamente para a corporação”, relata João Maciel.

O policial acrescenta que, para muitos, integrantes das forças de segurança podem parecer preconceituosos, pois a discriminação racial é generalizada. “Infelizmente, a maioria dos crimes ocorre em (áreas onde vivem) populações pobres, majoritariamente formadas por negros ou pardos. Isso justifica a maior concentração dessas pessoas entre as que têm problemas com a Justiça. Porém, tais índices aparecem não pelo tom de pele, mas pelas condições de marginalização às quais essas populações estão sujeitas. Como delegado, posso ser o primeiro a evitar que erros aconteçam. De fato, é melhor um culpado livre do que um inocente encarcerado”, finaliza.

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