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Bem Informado Ninguém é Enganado

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Família vive a agonia da dúvida sobre morte

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Foto: Myke Sena
Manuela Rolim
manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br
Oenterro de Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo, encontrado morto dentro de uma cela da 13ª Delegacia de Polícia na sexta-feira passada, um dia antes de completar 49 anos, foi marcado por homenagens à vítima e dúvidas da família diante da perda repentina. A cerimônia do motorista, funcionário da presidência da Caixa Econômica Federal há quase três décadas, aconteceu no cemitério de Sobradinho II, pouco antes do meio-dia. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) vai entrar no caso.
Mais cedo, o velório contou com a presença de muitos amigos e parentes de Luís, todos visivelmente abalados. Na ocasião, uma das irmãs da vítima, a estudante Marta Rodrigues Figueiredo, 54, com quem o motorista morava, ressaltou a posição da família diante da hipótese de suicídio. “Não acreditamos nisso. Posso afirmar que meu irmão não se matou porque esse não era o perfil dele, ainda mais da forma como aconteceu. Ele não tinha força para tanto”, afirmou.
Foto: Myke Sena
Marta destacou ainda a personalidade doce de Luís. “Era uma pessoa simples, tranquila e sempre alegre. Gostava de viver e tinha muito prazer pelo trabalho. Em 29 anos como funcionário da Caixa, nunca faltou ou apresentou atestado. Ele não tinha motivo para tirar a própria vida. Pelo contrário, estava radiante porque havia ganhado a sexta-feira de folga e ia poder começar as comemorações do aniversário antes de sábado, quando marcou um almoço para celebrar a data”, acrescentou.
Segundo a estudante, a família inteira está empenhada em acompanhar as investigações. “Espero que Deus mostre a verdade. Na sexta-feira, chegamos à delegacia com o valor da fiança (R$ 1,2 mil) e ninguém falou nada sobre o óbito. Começamos a perguntar pelo meu irmão, mas não tínhamos resposta. Depois, teve início uma movimentação estranha, até que um agente pediu um socorrista. Minha filha chegou a dizer que era brigadista e poderia ajudar, mas não a deixaram entrar. Só descobrimos o que havia acontecido depois que o meu marido comentou que também trabalhava na área de primeiros socorros e foi até a cela. Ele foi o único a entrar. Já o delegado simplesmente desapareceu”, relatou.
Marta também questionou o papel da Secretaria de Segurança na história. “Independentemente do que aconteceu, o Estado era responsável pela segurança e guarda do Luís lá dentro”, concluiu.
Durante o sepultamento, o discurso de despedida do filho único do motorista se destacou como um dos momentos mais emocionantes. Pouco antes de enterrar o pai, o brigadista Kaio Vinícius Figueiredo, 27, aproveitou a dor da perda para dar um conselho.
“Vocês que têm pai e mãe vivos, amem-os mais. Não tenham vergonha de expressar esse sentimento. Sou um cara muito frio e, inúmeras vezes, meu pai me ligava e pedia para eu dizer que o amava, mas eu não conseguia. Hoje, sinto que tinha que ter falado. Os amigos e a família eram as maiores riquezas dele”, disse o brigadista, que também não acredita em suicídio. “Mas, se por acaso aconteceu, por que não tinha vigilância?”, completou.
Fã de flashbacks, Luís Cláudio teve um enterro do jeito que pediu aos parentes: ao som de canções e muitos aplausos. O motorista era separado, único homem de cinco irmãos e avô de duas crianças.
Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo completaria 49 anos no sábado. Foto: Arquivo pessoal
O presidente da Caixa Econômica Federal, Giberto Occhi, também esteve presente no cemitério e ressaltou o profissionalismo do funcionário. “Era uma pessoa sempre disponível, dinâmica e proativa. É uma perda muito grande para a família e para nós, que convivíamos com ele todos os dias, inclusive sábados e domingos. Toda segunda- feira, quando me buscava em casa, íamos conversando sobre os jogos do fim de semana. Ele era flamenguista como eu. Agora, só me resta ficar com a saudade”, afirmou.
Occhi estava viajando quando soube do ocorrido pela irmã da vítima. “Não há dúvidas de que o Luís era um ser humano excelente”, finalizou.

Advogado critica tratamento da polícia
Advogado da família e primo da vítima, Paulo César Machado Feitosa, questionou a postura da Polícia Civil momentos após o óbito. “Assim que soube, fui para a 13ª DP. Ao chegar lá, me identifiquei e pedi para ter acesso ao local, mas negaram. Também fiz um requerimento solicitando acompanhar a perícia. No entanto, mais uma vez, meu pedido foi negado”, declarou.
Segundo o advogado, o único que conseguiu entrar na cela e detalhar o cenário foi o marido da irmã de Luís. “Ele estava com a camisa enrolada no pescoço e presa a uma janela de ventilação da cela. Portanto, encontrava-se pendurado, porém, com os joelhos flexionados e de costas para a parede. Além disso, estava de bermuda e com os chinelos nos pés. Meu cunhado ainda percebeu que o Luís havia urinado, mas não tinha nenhuma marca no chão. Vale lembrar que o delegado não permitiu que a camisa fosse tirada do pescoço”, acrescentou.
Ainda de acordo com Feitosa, a todo momento, a PCDF tratava o caso como suicídio. “A causa da morte apontada na certidão de óbito foi asfixia física ou química por enforcamento. Agora, se ele mesmo fez isso ou foi enforcado é o que vamos descobrir”, completou. Para ele, seria impossível uma pessoa se matar com uma camiseta polo, modelo que a vítima estava vestida. “Então, já que a PCDF alega suicídio, por que não devolveram a blusa?”, questionou.
Após o sepultamento, todos foram para a casa onde Luís morava, na QMS 1B, Rua 23, no Setor de Mansões de Sobradinho. O carro da Caixa Econômica Federal, um Toyota Corolla preto, utilizado pelo motorista para trabalhar, ainda estava no local e com as marcas, quase que imperceptíveis, da batida ocorrida na sexta-feira.
Policial não se manifesta
O sargento da Polícia Militar que acionou uma equipe após o motorista encostar no seu veículo mora na mesma rua. A equipe do Jornal de Brasília bateu na porta da casa dele, mas o policial não quis conceder entrevista e orientou a reportagem a procurar a comunicação da PMDF.

Investigações Continuam
Ontem, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) afirmou que já está ciente do ocorrido e vai entrar no caso. “A Ordem vai solicitar profundas investigações sobre as condições da prisão e do encarceramento do Luís. Amanhã (hoje), vamos acionar a Secretaria de Segurança Pública”, confirmou o presidente Juliano Costa Couto.
A reportagem procurou as corporações envolvidas. A PMDF alegou ter sido acionada para uma ocorrência de trânsito comum. Ao chegar ao local, o motorista estava com sintomas de embriaguez, mas se recusou a fazer o teste do bafômetro. Somente na delegacia, foi constatado que o condutor apresentava 1.35 miligramas de álcool por litro de ar. Ainda de acordo com a PM, a rua estava cheia de crianças e Luís Cláudio foi entregue ileso à delegacia.
A reportagem esteve ainda na 13ª DP, onde delegado Robert Menezes se limitou a dizer que foi “uma prisão em flagrante regular com altíssimo índice de embriaguez”. Segundo Menezes, ele não sabia que a família já estava providenciando a fiança, por isso encaminhou o motorista à cela. “Além disso, o deixamos vestido para que não se configurasse tortura. Essa é uma recomendação de órgãos como o Ministério Público, por exemplo. Quanto à uma possível vigilância do preso, isso não existe em nenhuma delegacia do País”, afirmou.
Por duas vezes, a reportagem questionou a Divisão de Comunicação da PCDF sobre a impossibilidade do advogado da família de Luís acompanhar a perícia na cela e o fato de nenhum agente ter ouvido nada enquanto o motorista estaria cometendo suicídio. No entanto, não as respostas não foram recebidas. Segundo a corporação, a perícia foi devidamente realizada por peritos do Instituto de Criminalística e o laudo será concluído em 30 dias. Foi instaurado procedimento apuratório, que será conduzido no âmbito da CGP/PCDF.
“Apesar de o IML não informar preliminarmente detalhes de laudos ainda em produção, os peritos de local não visualizaram em Luís qualquer lesão externa, que não aquela proveniente do próprio enforcamento. A causa imediata da morte é asfixia secundária a enforcamento, conforme descrição contida na Declaração de Óbito”, informou a Divicom.
Falta de efetivo
Em nota, o Sindicato dos Policiais Civis do DF lamentou a morte do servidor público e reforçou que há vários anos faz alerta sobre a falta de efetivo nos plantões e a ausência de estrutura física na corporação, o que, segundo o sindicato, prejudica os atendimentos.
Ainda de acordo com o texto, o alerta para o risco de morte de policiais e de cidadãos que eram atendidos nas delegacias em razão da falta de efetivo, de falta de procedimentos e de falta de estrutura adequada ficou registrado durante a realização da Operação Vida, há cerca de três anos.
Jornal de Brasília também procurou a Secretaria de Segurança Pública, mas, até o fechamento desta edição, não recebeu nenhum retorno da pasta.
 
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